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09/09/2014 A demografia e sua influência no baixo rendimento dos títulos do Tesouro dos EUA

À medida que envelhecemos, curiosamente ficamos suscetíveis aos argumentos de que não somos nós que mudamos, e sim o mundo. O mesmo pode estar acontecendo com o chamado dilema do mercado de bônus, em que o efeito do envelhecimento populacional recebe pouquíssima atenção, apesar de provavelmente ter um impacto considerável.

Assim como em 2005, quando um perplexo Alan Greenspan tornou popular a ideia do dilema, a questão hoje é uma divergência entre os títulos do Tesouro dos Estados Unidos de prazos mais longos, cujos rendimentos estão caindo, e a política monetária, que está sendo apertada. Se o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) tivesse controle sobre o mercado de bônus - uma ideia questionável -, isso não deveria estar acontecendo.

Mas está. Apesar da redução constante das compras de bônus pelo Fed e o aumento da expectativa de uma alta das taxas de juros no ano que vem, os rendimentos dos Treasuries de dez anos caíram mais de meio ponto porcentual no ano até agora, permanecendo próximo dos 2,4%. Ainda mais impressionante é o fato de os rendimentos dos Treasuries de cinco anos não terem acompanhado, uma divergência não registrada desde a década de 60, segundo o "Financial Times".

Várias explicações podem ser oferecidas, da ideia de que os bônus estão acompanhando o esperado afrouxamento da política monetária do Banco Central Europeu (BCE) à possibilidade de isso refletir uma confiança maior na capacidade de os Estados Unidos manterem seu orçamento sob controle.

Também é possível, é claro, que os rendimentos dos bônus estejam caindo porque estamos enfrentando de fato uma estagnação secular, um período prolongado de baixo crescimento e inflação obstinadamente baixa.

Um olhar para os nossos rostos desanimados no espelho pode ajudar a esclarecer as coisas. "A demografia pode ser responsabilizada pela queda dramática da inflação e dos rendimentos dos títulos americanos", escreve o economista Ed Yardini, da Yardini Research. "Na verdade tem havido uma aproximação forte entre a 'Onda Etária' (ou seja, o porcentual da força de trabalho na faixa dos 16 aos 34 anos), a tendência da inflação e o rendimento dos Treasuries de dez anos."

À medida que as pessoas envelhecem, muita coisa muda. Nos estágios iniciais da vida as pessoas tendem a acumular ativos e poupar para uso eventual na aposentadoria, e realizam muitos gastos de efeito estimulante, equipando suas casas, criando a família e educando os filhos, e geralmente consumindo de muitas formas.

O envelhecimento e as mudanças associadas a essa fase da vida tendem a desencorajar o crescimento econômico e podem estar por trás da demanda por bônus. Os Estados Unidos possuem hoje menos pessoas na faixa demográfica dos 16 aos 34 anos do que há 50 anos, com pouco menos de 36% de sua população neste grupo. Em meados da década de 70, esse percentual estava acima dos 50%.

Embora nada disso explique perfeitamente o que está acontecendo no mercado de bônus este ano, sabe-se que o envelhecimento da população faz é conduzir uma procura por bônus. Parte da diferença dos rendimentos dos bônus de cinco e dez anos neste ano pode até mesmo ser atribuída à busca por proteção dos passivos conduzida por esse fator demográfico, para a qual bônus de prazos mais longos são usados.

Qualquer que seja o caso, um impacto claro do envelhecimento populacional é que as pessoas mais velhas e que administram seu dinheiro por conta própria vão buscar mais títulos, tanto para reduzir os riscos à medida que se aproximam da aposentadoria quanto, cada vez mais, para integrar parte da estratégia de hedge contra uma vida longa demais.

Isso vale tanto para os poupadores individuais como para investidores institucionais. Dados de 2010 sobre os fundos mútuos mostram que os detentores de contas de previdência 401(k) na casa dos 60 anos tinham uma probabilidade três vezes maior de manter menos de 40% da carteira exposta em ações do que aqueles na casa dos 20 anos.

Tudo isso é consistente com pelo menos duas ideias interligadas: a de que a questão demográfica está contribuindo para o crescimento lento, a baixa inflação e os baixos rendimentos dos bônus; e a de que a demografia está conduzindo a demanda por bônus, que está tornando os rendimentos menores do que de outra forma eles estariam.

É certo que as pessoas envelhecem dia após dia, de modo que as mudanças demográficas são mais difíceis de serem percebidas do que o que estamos observando nos mercados.

Mesmo assim, com compradores de menor importância estabelecendo os preços no mercado, pode ser que mais investidores estejam comprando o argumento da estagnação secular, talvez apoiados nas tendências demográficas - uma aposta de momento, se você preferir, baseada na ideia de que a economia não está com muito ímpeto.

Aqui vale outro alerta: é difícil conciliar esse movimento com um desempenho muito forte das ações. O grande teste vai acontecer no ano que vem e vai depender da reação dos títulos e ações, à medida que as taxas forem subindo ou todos nós percebermos os motivos pelos quais isso não será possível em breve. (Tradução de Mario Zamarian)

Autor / fonte: Valor Econômico Link Relacionado: http://www.valor.com.br/financas/3687626/demografia-e-sua-influencia-no-baixo-rendimento-dos-titulos-do-tesouro-dos-eua Tags: demografia, EUA, títulos
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