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09/07/2014 Repensando os investimentos ao longo da trajetória rumo à aposentadoria

Imaginar a trajetória de rebalanceamento da exposição à renda variável nos planos de previdência, ou seja, a ideia de que os poupadores deveriam cortar posições de alto risco automaticamente conforme se aproximam da aposentadoria, como um pouso suave de uma aeronave é uma metáfora atraente, fácil de entender e instintivamente reconfortante. Mas, para muitos, principalmente para os que tiveram a falta de sorte de passar por um dos muitos períodos históricos prolongados de baixos retornos, esse caminho termina bem aquém da pista de pouso.

Uma das primeiras sacadas fundamentais sobre os investimentos é a de que, pelo fato de as ações serem voláteis, à medida que a pessoa se aproxima do período em que precisará recorrer às suas economias para sobreviver, deveria reduzir a exposição em ações e comprar bônus. É isto o que está por trás da regra prática do velho assessor em aplicação de recursos, que diz que as pessoas deveriam ter uma exposição em ações de 110 menos a idade atual, ou seja, um poupador de 55 anos, por exemplo, deve ter uma exposição de 55% em ações, enquanto que um de 25 anos pode destinar uma percentual maior, de 85%, para o mercado de renda variável.

A maioria dos fundos com data-alvo, que alcançaram enorme sucesso entre os poupadores em planos de contribuição definida, também segue trajetória semelhante, ao reduzir progressivamente a exposição em ações conforme a aposentadoria vai chegando. Isso funciona bem se os retornos forem os normais, mas eles raramente são.

Ben Inker e Martin Tarlie, da gestora de ativos GMO, examinaram esse método e, ao calcularem seu desempenho usando dados que remontam a 1881, descobriram alguns resultados perturbadores. Empregando como hipótese uma fórmula de distribuição de recursos típica de fundo com data-alvo, e supondo um poupador de 55 anos que, naquele momento, estivesse no caminho certo para gerar os recursos necessários para a aposentadoria, Inker e Tarlie descobriram que o infeliz ficaria sem dinheiro antes dos 95 anos por mais da metade do tempo.

Embora isso seja contrabalançado pelo número quase equivalente dos que ainda teriam dinheiro, no caso de alguns deles uma soma até bastante satisfatória, esse é um resultado surpreendentemente ruim, numa época em que um número cada vez maior de pessoas vive até uma idade avançada. "Acreditamos que a maneira certa de formar carteiras para a aposentadoria é focar no volume de recursos necessários e quando serão necessários, concentrando-se não em maximizar o patrimônio esperado, mas em minimizar o déficit de ativos esperado em relação ao que é necessário ter ao se aposentar", escrevem Inker e Tarlie.

O verdadeiro problema dos fundos com data-alvo, e de muitas iniciativas de planejamento de investimento, é que eles pressupõem que os retornos esperados serão constantes no decorrer do tempo, coisa com a qual, na verdade, só podem contar os que, entre nós, viverão para sempre.

Quanto a nós outros, temos de enfrentar não apenas a volatilidade diária e trimestral, mas o risco muito real de que possamos simplesmente ter escolhido maus tempos para poupar. Limitar-se a examinar dados americanos também deverá resultar num quadro pouco realisticamente otimista sobre a frequência com a qual isso acontece. Pensemos apenas, para tomar somente um exemplo, em todos os alemães cujas economias aplicadas em ações para a aposentadoria foram ceifadas pela Primeira Guerra Mundial.

Um instrumento útil para gerir o risco, de variação de retornos, se não de guerra, é usar avaliações como parâmetro para ajudar a determinar que valores comprometer em ações. Tem havido uma forte correlação histórica, destacam Inker e Tarlie, entre avaliações de mercado e os retornos subsequentes.

Em outras palavras, se a pessoa possuir menos ações em épocas de preços altos o e mais delas em tempos de ações baratas, ela poderá melhorar seus retornos mesmo enquanto ainda seguir, em grande medida, uma trajetória de redução da exposição em renda variável rumo à aposentadoria.

Por exemplo, se o mercado ostentar uma relação preço/lucro (P/L) de Shiller de 19 vezes (comparativamente ao padrão histórico de 16 vezes), um investidor de 65 anos poderá deter apenas 20% em ações, cerca de metade da alocação normal de fundo com data-alvo, também conhecido como ciclo de vida. Calculando os números com base nesse método dinâmico de alocação, Inker e Tarlie detectam que a probabilidade de o nosso investidor de 55 anos falir antes dos 95 cai para 13%, contra os 52% do exemplo dos fundos de data-alvo. Não é um resultado exatamente perfeito, mas muito melhor.

Com certeza, os retornos revertem para a média, mas, muitas vezes, não no devido tempo. Mesmo assim, quanto mais tempo a pessoa puder esperar, maior a probabilidade de que sua exposição superior e inferior aos níveis recomendados, baseada na avaliação, valerá a pena.

Outro instrumento que raramente é discutido na gestão desses riscos é ainda mais simples: o ritmo da poupança. Os poupadores que estão atrás de suas metas de acumulação de patrimônio, por um motivo ou outro, deveriam, seriamente, elevar suas contribuições. Embora não seja coisa fácil de vender a um cliente ("Invista conosco e consuma menos!"), isso reduz o risco de um déficit na aposentadoria sem obrigar o poupador a estimar a trajetória futura das bolsas.

Com mais de US$ 650 bilhões investidos em fundos com data-alvo, segundo dados da assessoria de investimentos Morningstar, o que está em jogo para um país cada vez mais povoado por pessoas de futuros 95 anos, como os Estados Unidos, é alto. (Tradução de Rachel Warszawski)

James Saft é colunista da Reuters. Este artigo expressa as opiniões do autor e não as do jornal Valor ou da Reuters.

Autor / fonte: Valor Econômico Link Relacionado: http://www.valor.com.br/financas/3607708/repensando-os-investimentos-ao-longo-da-trajetoria-rumo-aposentadoria Tags: aposentadoria, investimentos
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