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17/12/2013 Lugar mais amigável para morar após os 60

Existem cidades ideais para os aposentados? A resposta pode variar conforme o especialista consultado, mas ao menos em três pontos a opinião de todos parece convergir. Em primeiro lugar, o senso comum aponta que alguns municípios, por motivos que nem sempre coincidem, se revelam mais amigáveis a pessoas com mais de 60 anos. Em segundo, paraísos turísticos nem sempre são sinônimo de qualidade de vida para os idosos. Por fim, existe o consenso entre eles de que uma cidade amiga do idoso é uma cidade que também serve para todas as idades.

"Os próprios idosos rejeitam a ideia de uma cidade para a terceira idade, assim como recusam o isolamento dos asilos", afirma Paulo Takito, sócio-diretor da empresa de inteligência de mercado Urban Systems. Por outro lado, ele continua, todos querem viver em locais com iniciativas públicas que promovem a inclusão. Isso implica existência de estruturas e serviços que aumentem a qualidade de vida à medida que as pessoas envelhecem.

"Nas milhares de entrevistas qualitativas que já fizemos com esse público, para estudos variados, a preocupação recorrente na hora de escolher moradia, em todas as faixas salariais, sempre foi a existência de infraestrutura de saúde nas proximidades", exemplifica o especialista.

Em pesquisa recente, a Urban Systems considerou este e uma série de outros indicadores demográficos, econômicos e de qualidade de vida para comparar cidades brasileiras com mais de 100 mil habitantes. O objetivo foi identificar aquelas mais adequadas para se viver após a aposentadoria.

São Caetano do Sul, na região do ABC paulista, ficou no topo do ranking, com notas altas em quesitos que vão desde longevidade e proporção de leitos hospitalares por idoso até serviços públicos gratuitos os mais variados, como academia de ginástica, fisioterapia e manicure.

Um dos fatores importantes por trás do estágio alcançado por cidades como São Caetano do Sul, segundo Takito, é a existência de grande população com mais de 60 anos e com um bom nível de renda. "Em geral, onde há muitos idosos com boa renda, a pressão da demanda gera oferta de mais serviços específicos e de melhor qualidade, o que atrai idosos de outras regiões", diz o especialista.

Takito destaca também os municípios de Santos (litoral paulista), Niterói (Rio de Janeiro), Porto Alegre (Rio Grande do Sul), Balneário de Camboriú (Santa Catarina), Poços de Caldas e Belo Horizonte (Minas Gerais), Vitória (Espírito Santo), Presidente Prudente e Araraquara (interior paulista). Ao lado de São Caetano do Sul, eles compõem o Top 10 de melhores municípios para aposentados no país, segundo a Urban Systems.

Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional de Longevidade do Brasil (ILC-BR), defende que qualquer metodologia usada para definir se uma cidade é boa para aposentados tem de consultar os maiores interessados. "Se o idoso, que é o protagonista, não for ouvido, os critérios se tornam arbitrários", diz.

Kalache criou o movimento Cidade Amiga do Idoso, da Organização Mundial da Saúde (OMS), para promover a eliminação de barreiras e o aproveitamento de todo o potencial de idosos com diferentes necessidades e graus de capacidade.

A iniciativa oferece a governos, entidades voluntárias, setor privado e grupos de cidadãos um guia com check lists das principais características amigáveis, elaborados sob a ótica dos idosos. Os critérios consideram dimensões da vida urbana como espaços abertos, transporte, moradia, emprego, participação social, respeito e inclusão social, entre outros.

De acordo com Kalache, o guia Cidade Amiga do Idoso, já aplicado em mais de 1.400 cidades em todo o mundo, inclusive no Brasil, é usado em um processo permanente de autoavaliação e melhorias, e não visa comparar desempenhos. "Não há lista de classificação porque as cidades são muito diferentes. Um município pode ser muito agradável para viver e, por outro lado, não oferecer oportunidade de trabalho para quem quer continuar na ativa", exemplifica.

Para quem acumula economias e planeja mudar de cidade após deixar a vida profissional, Kalache alerta sobre riscos de se deixar influenciar por campanhas e rankings que apresentam destinos turísticos como paraísos para aposentados.

O próprio especialista já testemunhou inúmeros casos de isolamento de aposentados que se mudam para a Costa do Sol, badalada região turística ao sul da Espanha, onde tem uma casa. Segundo Kalache, muitos casais estrangeiros que lá se instalam sequer aprendem o idioma local. Sem raízes, relacionam-se apenas com os compatriotas. "Quando um deles adoece, os amigos se afastam, porque foram para lá para fugir de problemas. E a aposentadoria, que de certa forma já representa uma exclusão social com base simbólica, resulta em um total isolamento", diz.

Uma dica de Kalache para quem planeja se mudar após se aposentar é sempre levar em conta, além das facilidade e serviços da cidade, a possibilidade de estar perto de familiares ou pessoas com quem possa contar em momentos difíceis.

"Mais importante do que ter bom clima, uma praia ou uma piscina na porta da casa, é ter capital social, porque a fase em que o idoso pedala, faz caminhadas, hidroginástica e se mantém independente um dia acaba e, sem capacidade funcional, ele vai precisar de gente amiga, de serviço comunitário, de transporte adaptado, e vai descobrir que o paraíso não é tão bom assim."

Autor / fonte: Valor Econômico Link Relacionado: http://www.valor.com.br/financas/3370712/lugar-mais-amigavel-para-morar-apos-os-60 Tags: aposentados, moradia, qualidade de vida
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