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17/11/2008 Aposentados nos EUA aflitos com o futuro

Desde que o mercado de ações começou a cair, cresceu o número de amigos que procuram os conselhos de Barbara Goldsmith sobre depressão, perda de apetite, insônia e compulsão por sundaes com calda de chocolate. "As pessoas estão de luto. O dinheiro delas morreu", diz Barbara, psicoterapeuta semi-aposentada de 71 anos, referindo-se aos seus vizinhos do condomínio fechado Gleneagles Country Club, em Delray Beach, na Flórida.

Atualmente, medo e incerteza são sentimentos constantes em locais como Gleneagles e nos lares de aposentados de todo o país. Isso porque, ao contrário do que se imagina, milhões deles investem pesadamente no mercado de ações.

A queda livre da economia e a desvalorização de 40% no preço das ações neste ano fizeram com que legiões de pessoas das classes média e alta de repente começassem a se preocupar com a sobrevivência. É claro que não existem "filas do pão" nesse tipo de condomínio. A comunidade continua plácida, e, ao menos na aparência, altamente próspera. Os aposentados jogam golfe, tênis e cartas em meio a residências suntuosas, pintadas em tons pastel, fontes ornamentais, e palmeiras e primaveras floridas impecavelmente cuidadas.

Mas manter esse estilo confortável de vida por mais duas ou três décadas, como esperam muitos aposentados, exige dinheiro. Pessoas com investimentos que há alguns meses valiam US$ 1 milhão ou US$ 2 milhões agora estão cancelando cruzeiros marítimos, juntando cupons de supermercado, comendo em casa ao invés de restaurantes, e depositando menos dinheiro para a faculdade dos netos.

Da mesma forma que os aposentados de todos os lugares, os residentes de Gleneagles assumiram conscientemente o que consideravam "riscos competitivos".

À medida que se aproximavam da aposentadoria, todos foram aconselhados a retirar seus ativos do mercado de ações para alocá-los em investimentos superseguros. Mas, com taxas de juros tão baixas, o retorno de aplicações garantidas - como títulos do governo - era irrisório, e muitos preferiram deixar parte do dinheiro em ações. Os ganhos eram maiores, acreditavam, e mais adequados para financiar uma longa aposentadoria.

Com isso, naturalmente, eles se expuseram ao risco, então extremamente remoto, de um derretimento do mercado. Bem, esse dia chegou. "Todas as TVs da sala de jogos e dos vestiários do condomínio estão ligadas na CNBC, e com isso ficamos o dia inteiro angustiados. Enquanto apostamos alguns centavos no jogo, assistimos a nós mesmos perdendo dezenas de milhares (de dólares)", disse Jerry Rivkin, 75, dono aposentado de uma loja de aparelhos domésticos.
Para enfrentar a situação e poder continuar na Flórida, alguns estão vendendo casas no norte do país. Várias residências de Gleneagles tiveram suas hipotecas executadas, algo inconcebível até recentemente. O humor está ficando "negro" entre os moradores, que brincam sobre o encolhimento das suas contas individuais de aposentadoria, e sobre a triste surpresa que seus filhos terão ao receber a herança.

Durante anos, consultores financeiros e de planos de aposentadoria insistiram que as pessoas mais velhas deveriam investir pouco em ações e mais em títulos, certificados de depósito e outros investimentos conservadores. Mesmo alguns desses peritos, no entanto, reconhecem que tal estratégia nem sempre funciona com aposentados de boa saúde, que podem viver até os 90 anos ou mais, a menos que tenham muito dinheiro ou que se mudem para lugares com baixo custo de vida.

"Com a maior expectativa de vida e remédios que melhoram a cada dia, quem está se aposentando agora precisa investir no longo prazo. Isso implica na alocação de ativos em papéis de maior potencial de crescimento, como ações", disse Joseph La Scala, consultor financeiro da GunnAllen Financial.

Segundo estatísticas do governo, um terço dos aposentados praticamente não investe em ações. Mas a maioria destas pessoas é pobre ou de classe média baixa, que sobrevivem à custa do Seguro Social. Outras, principalmente as aposentadas há menos tempo, são beneficiadas com planos de previdência, mas estes encolheram nos últimos anos.

Os especialistas dizem que a maioria das pessoas das classes média e média alta tem carteiras de investimentos com maior peso em ações, e, portanto, correm um risco maior do que o geralmente recomendado. Segundo recente pesquisa da Universidade de Michigan patrocinada pelo National Institute on Aging (Instituto Nacional do Envelhecimento), mais da metade dos 40% mais ricos da população de 75 anos ou mais tem ao menos um terço da sua poupança acumulada concentrada em ações. "As pessoas mais velhas da classe média fizeram planos baseados num conjunto de suposições sobre como o mundo funciona, e o mundo enlouqueceu", disse Alicia Munnell, diretora do Center for Retirement Research da Universidade de Boston. Antes, observa, acreditava-se que as contas bancárias e os títulos corporativos eram seguros, e que as ações blue chips eram o melhor investimento de longo prazo.

"A meta da minha mãe era se aposentar com US$ 1 milhão em ações. Ela chegou a ter isso num fim de semana, mas a carteira agora vale US$ 600 mil", disse Jason Fichtner, comissário-interino da Social Security Administration.

Em Gleneagles, as pessoas continuam jogando cartas, fazendo musculação e tendo aulas de pintura. Mas a ansiedade da comunidade é palpável, e continua aumentando. Harry Pure, 80, aposentado como diretor de atletismo da Universidade da Filadélfia, perdeu 25% das suas economias. No intervalo de uma aula de pintura, ele desabafou: "Eu me sinto péssimo.

Era ótimo por a cabeça no travesseiro à noite me sentindo seguro. Agora, as células cerebrais não dormem. Eu só consigo pensar ‘o que eu faço, o que eu faço?’"

Mesmo os que têm carteiras relativamente grandes estão temerosos. "Isso ameaça nosso estilo de vida", disse Sid Freedman, 74, ex-proprietário de uma empresa têxtil que divide seu tempo entre Gleneagles e Great Neck, em Long Island. Com mais de US$ 2 milhões em ativos, ele e a mulher achavam que teriam uma longa e garantida aposentadoria.
Mas sua carteira de ações perdeu entre 30% e 40% do valor. E, como não tem pensão, ele já pensa em recorrer à sua "rede de segurança" caso o mercado continue caindo - sua casa de Long Island, que talvez tenha de vender, mesmo que isso signifique passar menos tempo com os filhos e netos.

Quanto à psicoterapeuta Barbara Goldsmith, ela já alertou os filhos: "Eu tenho avisado que, se eles estão contando com a herança, podem tirar o cavalinho da chuva."

Autor / fonte: Gazeta Mercantil/Finanças & Mercados - Pág. 4 - Clifford Krauss/The New York Times Link Relacionado: http://
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